Supernanny está preocupada com a radicalização
Não foi só o “cientista político” Sérgio Fausto que se incomodou comigo na quarta (ver post de ontem). Na Folha, no mesmo dia, foi a vez de Marcelo Coelho, num texto chamado “Identidades em fúria” (aqui para assinantes). Criticou as posições extremadas no debate, o “radicalismo sem rumo”, o “terrorismo confessional”, a “provocação via computador”. Diogo Mainardi já acusou a sua vocação de supernanny, um vexame intelectual para quem era candidato a ser Montaigne. Ainda que dos nossos Campos Elíseos. Ele lastima: “Agora, ‘petralhas’ e ‘tucanalhas’ são termos que passaram ao uso comum.” É mesmo? A primeira palavra é uma criação minha. Não sabia que já está destinada ao dicionário. A segunda foi só uma tentativa da reação. Mas ela perde enormemente em popularidade. Marcelo Coelho, a babá, está preocupado. Maus meninos, não seremos bons moços propositivos. Onde estão as idéias?, ele quer saber. É a pergunta que sempre me faço ao ler seus artigos.
Ele volta àquilo que parece entender os pontos extremos de um debate: de um lado, Luciano Huck; de outro, Ferréz. Segundo Coelho, uma “questão de identidades, não de alternativas”, parece resumir muitas das polêmicas em curso. Leiam o artigo e avaliem se estou sendo muito rigoroso. O que vai aí entre aspas é a síntese de seu texto. Não é difícil provar que ele não quer dizer nada. É embromação. Até porque as “alternativas” nascem justamente das “identidades”. Se não consigo distinguir as diferenças, entendendo cada coisa em sua natureza, vou me atrapalhar ao fazer escolhas — e talvez nem consiga fazê-las. Coelho envelheceu, ficou preguiçoso, escreve qualquer coisa. Dá até conselhos para pais coroas de filhos jovens. O que vou escrever é a crítica mais dura que se pode fazer a alguém: ele já foi melhor. A decadência o corteja.
No artigo que eu escrevi para a Folha, as idéias não poderiam ser mais claras, e recuso, nesse caso ao menos, a pecha de que eu estava num dos extremos do debate (o que, aliás, deixei claro no texto). Com a devida vênia, pus-me acima dele. Está lá:
- democracia é um jogo com regras;
- há regras também para mudar as regras;
- tudo se debate, menos o solapamento das bases que nos permitem debater;
- Ferréz fez isso. Logo, não é um interlocutor. Se lhe permitimos a defesa de um crime em particular, quais outros serão dignos do mesmo tratamento?;
- a Folha errou ao publicar o texto;
- na conclusão do artigo, fazendo alusão a outro assunto, evidenciei com números que o índice de homicídios em São Paulo — um terço do resto do Brasil e um quatro do Rio — também se explica pelo fato de que o estado prende mais bandidos.
É a opinião de quem defende a democracia e o estado de direito. Não há nada de espetacular no que vai acima. Mas, na taxonomia coelhana, não sendo evidentemente “petralha”, então deve ser coisa de “tucanalha”, embora ele lamente essa divisão para, vejam só, reforçá-la. Ele me cita em seu texto por meio da minha “criação”.
Um pouco de história
Um petralha me enviou um comentário hoje, que tive de excluir porque abusou do chulo, em que delirava com a seguinte situação: eu, pálido de medo, acompanhado da minha família, com um revólver na cara. O ladrão, escreveu ele, dispara contra a minha cabeça, e dela “sai muita merda por todos os buracos”. Segundo escreveu, é o que mereço. E desafiava: “queria ver aonde iria a sua valentia”. Por “valentia”, suponho, ele toma a prática de dar nome às pessoas de quem discordo. De fato, na situação imaginada por ele, tremeria de medo. Primeiro pela minha família e depois por mim.
E tudo isso por quê? Porque, apontam os cerca de mil comentários que elimino por dia, eu sou “de direita”. E a “direita” merece experimentar na própria carne as “agruras do capitalismo” — ou bobagem do gênero. Quem me conhece, goste ou não de mim, sabe muito bem que não tenho qualquer vinculação partidária. Aliás, a acusação “direitista”, com o tempo, tomou o lugar de outra: “tucano”. Jamais me senti agravado com uma palavra ou com outra. Não dou bola para o que pensam de mim. Uma das coisas que irritam sei bem qual é: esperavam que me defendesse. Mas eu jogo no ataque. Como se vê, não devo mesmo ser tucano.
Impressiona-me — ou melhor: não me impressiona — que Coelho venha a ser a babá pudorosa justamente agora. Os arquivos estão aí. E quando apenas um dos lados (ele acredita haver apenas dois; eu acho que há muitos) tinha o monopólio do ataque e da ofensa? Onde ele estava? Não seria difícil provar sua escancarada simpatia pelo PT. No dia 21 de outubro de 2006, por exemplo, escrevia na Folha: “O rótulo [de privatista] funcionou para associar a candidatura Alckmin ao impopularíssimo governo Fernando Henrique Cardoso. O debate eleitoral tornou-se, em boa medida, um julgamento dos anos FHC; Alckmin poderia ser muito melhor candidato do que é, mas do ponto de vista eleitoral paga um preço altíssimo por essa ‘herança maldita’”.
Ele comentava a campanha mentirosa, urdida pelo PT, acusando a suposta intenção do então candidato tucano de privatizar estatais. Sobre a mentira em si, nada. Quando era o braço leigo de Júlio Lancelotti, chegou a atribuir a Anatole France o que Anatole France não dissera para atacar a rampa “antimendigo” (como chamou a Folha, adotando a terminologia do padre) de São Paulo. Em setembro do ano passado, distorceu uma frase de FHC para sugerir que o ex-presidente estava com saudades de Carlos Lacerda. Tudo simples e natural. Nada de “estridência”.
Faltou muita coisa a Coelho para ser nosso Montaigne. Mas, antes de tudo, faltou coragem. Não a de enfrentar o trabuco, como o petralha quer que eu faça, mas a de pensar fora dos cânones — no caso, do politicamente correto e da esquerda. Nos anos FHC, ele se tornou a referência de uma crítica supostamente culta e não-acadêmica ao “presidente intelectual”. O tempo se encarregou de transformá-lo em mera facção do PT: a mais soft, a mais educadinha, aquela que não come com os cotovelos sobre a mesa.
Quantos somos?
Coelho reclama também do que chama “estridência”. Mas onde ela está? Por que tenho a impressão de que, quando tal assunto vem à tona, os críticos estão se referindo à VEJA, a Diogo Mainardi e a mim? A crítica à revista é até compreensível. Tentam demonizá-la de várias maneiras, e ela só faz crescer. Deve ser uma frustração e tanto. Políticos, de fato, a temem. Não por seus eventuais defeitos. Mas por suas notórias qualidades. Diogo é certamente o jornalista mais comentado do país, gostem ou não dele, e se manifesta por meio de sua coluna semanal, de suas intervenções num programa de TV (ao todo, sua fala não deve somar 15 minutos) e de seus livros, mais raros do que gostaríamos. Vamos ser claros: nem é tanto repulsa ao que ele escreve o que mobiliza os críticos, mas o ódio ao fato de que ele tem uma legião imensa de leitores. Se é o mais lido da VEJA, é o mais lido do Brasil. Alguma dúvida quanto a isso?
Meu blog é um trabalho pessoal, quase intimista. Faço-o sozinho, apegado às minhas obsessões. Já estava entre os mais visitados do país quando a VEJA me convidou para escrever na revista e para hospedá-lo em seu site. Ganhou ainda mais internautas, mais visibilidade, mais influência. Mas não mudou. Cá estou eu, trabalhando enquanto meus colegas da revista dormem (acho eu, hehe...). Foi-me dito apenas: “Queremos o seu blog como ele é. O resto é com você”. E assim tem sido. No terreno da crítica de alcance mais filosófico ao establisment esquerdista, Olavo de Carvalho também é vítima do permanente esforço de desqualificação.
O que mudou?
Somos tão poucos, mesmo sem pensar rigorosamente as mesmas coisas. O que mudou? Por que passamos a ser vistos quase como uma ameaça e sintoma de uma sociedade que caminha para os extremos? A resposta é simples. Antes, pretendiam nos ameaçar com a solidão; agora, querem nos fazer líderes de uma radicalização irracional. Ah, eu cansei de ouvir: “Daqui a pouco, ninguém mais dá bola pro Diogo Mainardi”. E, no entanto, testemunho como seu amigo: ele se esforça é para não virar uma celebridade. Já lhe pediram para opinar até sobre Ivete Sangalo no Domingão do Faustão...
Quantos foram os vaticínios de que meu blog morreria junto com a campanha eleitoral de 2006? Quantos são aqueles que me escrevem cotidianamente pra dizer: “Ninguém liga pra você”? Não? Nem mesmo os que me escrevem para dizer que ninguém liga pra mim? De fato, o que essa gente lastima é que tenhamos nos transformado em referências do debate. E não exatamente do antilulismo. Porque Lula, já disse aqui, é só o que o passa — embora, com a ajuda dos tucanos, isso vá demorar um pouco mais do que seria justo.
Pergunto-me às vezes: mas o que fazemos de tão formidável para que alguns coleguinhas incentivem, de maneira nem sempre discreta, uma cruzada contra nós? No fim das contas, Diogo e eu, humor à parte, somos até bastante convencionais. Chamamos crime de crime, ladrão de ladrão, bandido de bandido. No auge de nossa esquisitice, defendemos o cumprimento da lei. Ah, mas, assim, não contribuímos para o “debate propositivo”, dizem eles. Sei: como a ameaça da solidão não funcionou, então é preciso nos tomar como chefes de uma facção de extremistas. Ah, sim: Coelho tem um blog. Talvez o satisfaça o conforto de achar que é praticamente ignorado pelos leitores porque é bom demais pra eles.
Esse papo não cola. Não pedirei a compreensão dos que se arvoram a ser juízes do meu trabalho só porque tenho a grande ousadia de defender o cumprimento da Constituição e das leis — ou tentem evidenciar o contrário — e chamo de “petralhas” (também de “vagabundos”, “esquerdopatas”, “meliantes morais”, “vigaristas” — a lista é imensa) os que pretendem solapar as bases da sociedade democrática. Quando Stedile invade uma fazenda produtiva, ao arrepio da lei, não vejo por que ele deva merecer um tratamento diferente do que recebe Marcola. E escrevo isso. E escrevo porque posso escrever. E escrevo porque não devo satisfações aos aiatolás do pluralismo de um lado só.
Mas não lhes tiro de todo a razão. Algo de novo, de fato, está em curso na imprensa. A Folha, historicamente, esteve na vanguarda das novidades. O texto de Coelho deixa entrever a suspeita de que ela corre o risco, desta feita, de optar pela reação.
O tempo mandou um e-mail para Carolina, mas ela ainda não leu.
Por Reinaldo Azevedo

