Tributo ao Tio Rei

O Blog do Reinaldo Azevedo é tão citado em nosso fórum que resolvemos criar aqui uma área em homenagem à ele, um dos poucos lúcidos nestepaiz !!!

Mensagempor mends » 26 Out 2007 08:46

Supernanny está preocupada com a radicalização
Não foi só o “cientista político” Sérgio Fausto que se incomodou comigo na quarta (ver post de ontem). Na Folha, no mesmo dia, foi a vez de Marcelo Coelho, num texto chamado “Identidades em fúria” (aqui para assinantes). Criticou as posições extremadas no debate, o “radicalismo sem rumo”, o “terrorismo confessional”, a “provocação via computador”. Diogo Mainardi já acusou a sua vocação de supernanny, um vexame intelectual para quem era candidato a ser Montaigne. Ainda que dos nossos Campos Elíseos. Ele lastima: “Agora, ‘petralhas’ e ‘tucanalhas’ são termos que passaram ao uso comum.” É mesmo? A primeira palavra é uma criação minha. Não sabia que já está destinada ao dicionário. A segunda foi só uma tentativa da reação. Mas ela perde enormemente em popularidade. Marcelo Coelho, a babá, está preocupado. Maus meninos, não seremos bons moços propositivos. Onde estão as idéias?, ele quer saber. É a pergunta que sempre me faço ao ler seus artigos.

Ele volta àquilo que parece entender os pontos extremos de um debate: de um lado, Luciano Huck; de outro, Ferréz. Segundo Coelho, uma “questão de identidades, não de alternativas”, parece resumir muitas das polêmicas em curso. Leiam o artigo e avaliem se estou sendo muito rigoroso. O que vai aí entre aspas é a síntese de seu texto. Não é difícil provar que ele não quer dizer nada. É embromação. Até porque as “alternativas” nascem justamente das “identidades”. Se não consigo distinguir as diferenças, entendendo cada coisa em sua natureza, vou me atrapalhar ao fazer escolhas — e talvez nem consiga fazê-las. Coelho envelheceu, ficou preguiçoso, escreve qualquer coisa. Dá até conselhos para pais coroas de filhos jovens. O que vou escrever é a crítica mais dura que se pode fazer a alguém: ele já foi melhor. A decadência o corteja.

No artigo que eu escrevi para a Folha, as idéias não poderiam ser mais claras, e recuso, nesse caso ao menos, a pecha de que eu estava num dos extremos do debate (o que, aliás, deixei claro no texto). Com a devida vênia, pus-me acima dele. Está lá:
- democracia é um jogo com regras;
- há regras também para mudar as regras;
- tudo se debate, menos o solapamento das bases que nos permitem debater;
- Ferréz fez isso. Logo, não é um interlocutor. Se lhe permitimos a defesa de um crime em particular, quais outros serão dignos do mesmo tratamento?;
- a Folha errou ao publicar o texto;
- na conclusão do artigo, fazendo alusão a outro assunto, evidenciei com números que o índice de homicídios em São Paulo — um terço do resto do Brasil e um quatro do Rio — também se explica pelo fato de que o estado prende mais bandidos.

É a opinião de quem defende a democracia e o estado de direito. Não há nada de espetacular no que vai acima. Mas, na taxonomia coelhana, não sendo evidentemente “petralha”, então deve ser coisa de “tucanalha”, embora ele lamente essa divisão para, vejam só, reforçá-la. Ele me cita em seu texto por meio da minha “criação”.

Um pouco de história
Um petralha me enviou um comentário hoje, que tive de excluir porque abusou do chulo, em que delirava com a seguinte situação: eu, pálido de medo, acompanhado da minha família, com um revólver na cara. O ladrão, escreveu ele, dispara contra a minha cabeça, e dela “sai muita merda por todos os buracos”. Segundo escreveu, é o que mereço. E desafiava: “queria ver aonde iria a sua valentia”. Por “valentia”, suponho, ele toma a prática de dar nome às pessoas de quem discordo. De fato, na situação imaginada por ele, tremeria de medo. Primeiro pela minha família e depois por mim.

E tudo isso por quê? Porque, apontam os cerca de mil comentários que elimino por dia, eu sou “de direita”. E a “direita” merece experimentar na própria carne as “agruras do capitalismo” — ou bobagem do gênero. Quem me conhece, goste ou não de mim, sabe muito bem que não tenho qualquer vinculação partidária. Aliás, a acusação “direitista”, com o tempo, tomou o lugar de outra: “tucano”. Jamais me senti agravado com uma palavra ou com outra. Não dou bola para o que pensam de mim. Uma das coisas que irritam sei bem qual é: esperavam que me defendesse. Mas eu jogo no ataque. Como se vê, não devo mesmo ser tucano.

Impressiona-me — ou melhor: não me impressiona — que Coelho venha a ser a babá pudorosa justamente agora. Os arquivos estão aí. E quando apenas um dos lados (ele acredita haver apenas dois; eu acho que há muitos) tinha o monopólio do ataque e da ofensa? Onde ele estava? Não seria difícil provar sua escancarada simpatia pelo PT. No dia 21 de outubro de 2006, por exemplo, escrevia na Folha: “O rótulo [de privatista] funcionou para associar a candidatura Alckmin ao impopularíssimo governo Fernando Henrique Cardoso. O debate eleitoral tornou-se, em boa medida, um julgamento dos anos FHC; Alckmin poderia ser muito melhor candidato do que é, mas do ponto de vista eleitoral paga um preço altíssimo por essa ‘herança maldita’”.

Ele comentava a campanha mentirosa, urdida pelo PT, acusando a suposta intenção do então candidato tucano de privatizar estatais. Sobre a mentira em si, nada. Quando era o braço leigo de Júlio Lancelotti, chegou a atribuir a Anatole France o que Anatole France não dissera para atacar a rampa “antimendigo” (como chamou a Folha, adotando a terminologia do padre) de São Paulo. Em setembro do ano passado, distorceu uma frase de FHC para sugerir que o ex-presidente estava com saudades de Carlos Lacerda. Tudo simples e natural. Nada de “estridência”.

Faltou muita coisa a Coelho para ser nosso Montaigne. Mas, antes de tudo, faltou coragem. Não a de enfrentar o trabuco, como o petralha quer que eu faça, mas a de pensar fora dos cânones — no caso, do politicamente correto e da esquerda. Nos anos FHC, ele se tornou a referência de uma crítica supostamente culta e não-acadêmica ao “presidente intelectual”. O tempo se encarregou de transformá-lo em mera facção do PT: a mais soft, a mais educadinha, aquela que não come com os cotovelos sobre a mesa.

Quantos somos?
Coelho reclama também do que chama “estridência”. Mas onde ela está? Por que tenho a impressão de que, quando tal assunto vem à tona, os críticos estão se referindo à VEJA, a Diogo Mainardi e a mim? A crítica à revista é até compreensível. Tentam demonizá-la de várias maneiras, e ela só faz crescer. Deve ser uma frustração e tanto. Políticos, de fato, a temem. Não por seus eventuais defeitos. Mas por suas notórias qualidades. Diogo é certamente o jornalista mais comentado do país, gostem ou não dele, e se manifesta por meio de sua coluna semanal, de suas intervenções num programa de TV (ao todo, sua fala não deve somar 15 minutos) e de seus livros, mais raros do que gostaríamos. Vamos ser claros: nem é tanto repulsa ao que ele escreve o que mobiliza os críticos, mas o ódio ao fato de que ele tem uma legião imensa de leitores. Se é o mais lido da VEJA, é o mais lido do Brasil. Alguma dúvida quanto a isso?

Meu blog é um trabalho pessoal, quase intimista. Faço-o sozinho, apegado às minhas obsessões. Já estava entre os mais visitados do país quando a VEJA me convidou para escrever na revista e para hospedá-lo em seu site. Ganhou ainda mais internautas, mais visibilidade, mais influência. Mas não mudou. Cá estou eu, trabalhando enquanto meus colegas da revista dormem (acho eu, hehe...). Foi-me dito apenas: “Queremos o seu blog como ele é. O resto é com você”. E assim tem sido. No terreno da crítica de alcance mais filosófico ao establisment esquerdista, Olavo de Carvalho também é vítima do permanente esforço de desqualificação.

O que mudou?
Somos tão poucos, mesmo sem pensar rigorosamente as mesmas coisas. O que mudou? Por que passamos a ser vistos quase como uma ameaça e sintoma de uma sociedade que caminha para os extremos? A resposta é simples. Antes, pretendiam nos ameaçar com a solidão; agora, querem nos fazer líderes de uma radicalização irracional. Ah, eu cansei de ouvir: “Daqui a pouco, ninguém mais dá bola pro Diogo Mainardi”. E, no entanto, testemunho como seu amigo: ele se esforça é para não virar uma celebridade. Já lhe pediram para opinar até sobre Ivete Sangalo no Domingão do Faustão...

Quantos foram os vaticínios de que meu blog morreria junto com a campanha eleitoral de 2006? Quantos são aqueles que me escrevem cotidianamente pra dizer: “Ninguém liga pra você”? Não? Nem mesmo os que me escrevem para dizer que ninguém liga pra mim? De fato, o que essa gente lastima é que tenhamos nos transformado em referências do debate. E não exatamente do antilulismo. Porque Lula, já disse aqui, é só o que o passa — embora, com a ajuda dos tucanos, isso vá demorar um pouco mais do que seria justo.

Pergunto-me às vezes: mas o que fazemos de tão formidável para que alguns coleguinhas incentivem, de maneira nem sempre discreta, uma cruzada contra nós? No fim das contas, Diogo e eu, humor à parte, somos até bastante convencionais. Chamamos crime de crime, ladrão de ladrão, bandido de bandido. No auge de nossa esquisitice, defendemos o cumprimento da lei. Ah, mas, assim, não contribuímos para o “debate propositivo”, dizem eles. Sei: como a ameaça da solidão não funcionou, então é preciso nos tomar como chefes de uma facção de extremistas. Ah, sim: Coelho tem um blog. Talvez o satisfaça o conforto de achar que é praticamente ignorado pelos leitores porque é bom demais pra eles.

Esse papo não cola. Não pedirei a compreensão dos que se arvoram a ser juízes do meu trabalho só porque tenho a grande ousadia de defender o cumprimento da Constituição e das leis — ou tentem evidenciar o contrário — e chamo de “petralhas” (também de “vagabundos”, “esquerdopatas”, “meliantes morais”, “vigaristas” — a lista é imensa) os que pretendem solapar as bases da sociedade democrática. Quando Stedile invade uma fazenda produtiva, ao arrepio da lei, não vejo por que ele deva merecer um tratamento diferente do que recebe Marcola. E escrevo isso. E escrevo porque posso escrever. E escrevo porque não devo satisfações aos aiatolás do pluralismo de um lado só.

Mas não lhes tiro de todo a razão. Algo de novo, de fato, está em curso na imprensa. A Folha, historicamente, esteve na vanguarda das novidades. O texto de Coelho deixa entrever a suspeita de que ela corre o risco, desta feita, de optar pela reação.

O tempo mandou um e-mail para Carolina, mas ela ainda não leu.


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Mensagempor mends » 08 Nov 2007 18:00

Tem gente escrevendo com o nariz
É impressionante o fascínio que o Capitão Nascimento continua a despertar no jornalismo esquerdopata. A não ser por um repertório de piadas e expressões que caíram no gosto popular — “pede pra sair”; “O sr. é um fanfarrão”; “aspira” —, eu já não me lembraria mais do caso. Mas a esquerdopatia continua desarvorada. Trata-se de um caso patológico de confusão entre ficção e realidade. E de analfabetismo também: a canalha não sabe ler.

No artigo que escrevi para a VEJA sobre o filme, observei que Capitão Nascimento incomodava, entre outras razões, porque era “violento, mas não corrupto”. Isso num país em que a corrupção costuma ser mansa como os cordeiros. Imaginem: ladrões se disfarçam até de jornalistas; “propineiros” de quinta categoria, que alugam a opinião, passam por grandes moralistas da vida pública e críticos severos dos deslizes dos outros. Isso me faz lembrar uma passagem do Sermão do Bom Ladrão, de Padre Vieira: “De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar (...) Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.”

Assim, a opinião dessa gente vale o quanto pesa. O que é preciso ficar claro no barulho que a esquerdopatia ainda faz com o filme são as suas falsas motivações. Saibam: não se trata da defesa nem de bandido nem de pobre, mas de si mesma: dos próprio hábitos e vícios. Ela está pouco se lixando se pobre é posto “no saco” ou não. Isso acontece todos os dias nas cadeias brasileiras. E ninguém foi pedir penico pra ONU. Já repararam como os valentes não criticam o “Baiano” do filme, aquele rapaz que tem o hábito de botar desafetos numa coluna de pneus e meter fogo? Quantas são as execuções praticadas todos os dias nos morros do Rio e nas periferias dos grandes centros? Traficante matar traficante? Bem, isso é lá com eles. Pobre massacrar pobre? Normal. Problema deles. Nada de Nações Unidas. Cadê os jornalistas “humanistas”?

Disse que estão pouco se lixando pra isso, certo? Explicitei a questão no meu artigo na VEJA. Então qual é o busílis? A cena que dói na consciência dessa gente e que a deixa enfurecida é uma só: aquela em que o Capitão Nascimento enfia a cara do “estudante” de classe média no abdômen estuporado de um traficante e pergunta: “Quem matou esse cara?” Ele próprio responde: “Foi você, seu maconheiro! A gente vem aqui pra desfazer a merda que vocês fazem".

A canalha não pode suportar essa acusação. Porque ela pretende, cinicamente, gozar de todos os benefícios do estado de direito e de todas as licenças do estado da bandidagem, transitando nos dois pólos sem ser importunada — e, é claro, cobrando sempre da polícia mais segurança e mais eficiência. Em suma: quer garantias constitucionais para continuar a cheirar, a fumar e a fazer poesia com a miséria alheia. Mas também quer segurança, lei e ordem.

A sua dose de cidadania consiste numa consciência um tantinho culpada, em cobrar do governo “mais investimento em saúde, moradia e educação” e em apontar o dedo acusador contra os fantasmas “da direita”... Felizmente, esses picaretas caíram em desgraça. Por isso esperneiam.



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Mensagempor mends » 11 Nov 2007 09:16

Blogs, jornais, Muro de Berlim... Ou: “Virei notícia”

A Folha deste domingo traz uma reportagem sobre blogs de política (clique aqui e [url=v]aqui[/url]). O acerto: a pauta é relevante, claro. E a própria Folha, creio, num texto em que exalta a si mesma como “o jornal de maior circulação no Brasil”, explica por quê. Informa esta reportagem que, segundo “dados (...) relativos a setembro deste ano, a circulação da Folha é de 307 mil exemplares em média”. Em 1997, segundo o jornal, era “de 530 mil”. Em 2000, “de 441 mil”. Passados 10 anos, a circulação da Folha caiu, portanto, 42%, embora a população do país tenha crescido (para ler mais, clique aqui).

Dado o declínio dos jornais, é interessante especular para onde estão migrando os leitores. Uma parte, certamente, está indo para os blogs. A pauta de Uirá Machado e Fernando Barros de Mello, assim, é boa e tem razão de ser. Mas ela também comete o erro do convencionalismo — uma das causas do mal-estar dos jornalões. E qual é o pecado? A metáfora inicial o revela: “A Guerra Fria desapareceu com o Muro de Berlim, mas, guardadas as proporções, há uma encenação dela na blogosfera do país. Na guerra retórica que se trava no espaço virtual, ninguém corre o risco de morrer de verdade. Nem de tédio.”

Viram só? Os jornais perdem mais de 40% de circulação em 10 anos, os blogs estão em ascensão, mas, segundo a reportagem ao menos, presos a paradigmas do passado — à Guerra Fria — estão os blogs. É uma pena mesmo! Os jornalões morrerão todos cheios de si. E não pensem que saúdo isso, não. Ao contrário: lastimo. Lamento a sua dificuldade de se adaptar aos novos tempos. Se não podem responder ao desafio da agilidade proposto pela comunicação eletrônica — daí que todos eles tenham os seus próprios portais da Internet —, acredito que deveriam optar, então, por mais reflexão, mais opinião, mais verticalidade. Infelizmente, não é o que acontece. Por quê? Isso pediria um outro texto. Quero me fixar na reportagem. Mas não sem notar que, no trecho que destaquei do texto da Folha, a palavra “tédio” surge como uma espécie de bem-vindo ato falho. Entendo que os jornais olhem para os blogs como, sei lá, a Academia de Atenas olharia para os bárbaros — sempre tão buliçosos, não é? Mas Tio Rei lhes recomenda:

Cuidado com o tédio!!!

Não falei
A Folha me procurou — como vocês poderão ler, Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif concederam entrevistas —, mas eu me recusei a falar. E não falei por duas razões principais, uma delas exposta ao jornal num e-mail. Já apareci demais fora do meu blog. Daqui a pouco, viro o Caetano Veloso da blogosfera: vou opinar até sobre comida japonesa. A outra razão, que não expus porque seria me meter na pauta alheia, diz respeito à abordagem mesma, que pressenti. Sabia que eu seria posto num dos pólos de uma suposta briga ideológica.

Eu não quero Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif nem como adversários. Não estou na mesma vitrine de frios em que eles se encontram, na mesma banca da feira, na mesma gôndola do supermercado — ou, para ser fiel ao meu “estilo”, na mesma sarjeta. Exercemos profissões diferentes. As diferenças são muitas, infinitas, e a ideologia é só a menos relevante. Em primeiro lugar, sou alfabetizado, escrevo bem. Muito bem. Mesmo quem me odeia não me nega essa qualidade, fruto de algum talento natural, vá lá, mas de esforço, sem o qual o primeiro perde qualquer virtude. Não é o caso dos meus “adversários” na reportagem. Na “minha” redação, um foca com o texto de qualquer um deles levaria um “pé no traseiro”. Amorim é incapaz de escrever uma oração subordinada.

Há uma segunda diferença importante. Os dois valentes, depois de terem integrado veículos de ponta do jornalismo — Amorim foi da Rede Globo, e Nassif, da Folha —, agonizam em praça pública, experimentando, de forma indigna, a decadência profissional — para ser generoso. Os dois foram demitidos em razão dos próprios méritos (hora dessas, conto pra vocês o que Paulo Francis falava de Amorim, que chegou a ter a pretensão de ser seu chefe...) e se querem inimigos da grande imprensa. Não é o meu caso. Sempre que deixei um emprego, pedi demissão. Ninguém grita na minha orelha: “Pede pra sair, Zero Um”. Faço o meu próprio tempo. E não sou inimigo da grande imprensa. Ao contrário: sou seu admirador e entusiasta. E é recíproco: os “donos” me lêem. Vou fazer o quê?

Amorim e Nassif são hoje, na minha opinião, propagandistas do PT — o primeiro, de qualquer PT; o segundo, da ala, sei lá, “nacional-desenvolvimentista” (ou “social-desenvolvimentista). O menor deles defende o governo sem reservas, seja lá qual for a causa; o maiorzinho pergunta antes o que pensa “a direita do Banco Central”, os “cabeças de planilha”, para então emitir suas opiniões. Amorim, de todo modo, é mais ousado no adesismo e faz a sua própria pauta. Se preciso, cria até a notícia. Nassif, volta e meia, limita-se a dizer em seu blog quase clandestino o contrário do que digo aqui.

Os meus leitores — vocês — não ignoram as críticas que faço ao petismo. Mas sabem muito bem que não sirvo de esbirro a projetos políticos de partidos ou pessoas. Declaro, sim, preferências, mas escrevo rigorosamente o que me dá na veneta. Não sou o anti-Nassif ou anti-Amorim até por uma questão de estatura. A rigor, o “lulismo” — ou “antilulismo” — é o aspecto menos relevante do meu blog. A minha guerra não é “fria”. É “quente”. Lula é um sintoma do Brasil que deploro, não é a causa. É personagem. É circunstância. A “minha” pátria tem menos estado e mais indivíduo. O meu alvo, para citar Olavo de Carvalho, que falou com a Folha, é o “imbecil coletivo”, o imbecil do coletivismo. Se o PT deixar o poder em 2010, as minhas, vá lá, “causas” não desaparecem.

Não falei, então, também por isto: rejeito que o meu pensamento e o meu trabalho sejam postos na gaveta “x”, como se eu fosse parte de uma disputa ideológica a que a própria Folha fosse imune. E ela não é. De todo modo, agradeço a deferência e o espaço que me foi dedicado mesmo eu tendo me negado a falar com o jornal. Como antevi aqui dia desses, a palavra “petralha” ainda acaba entrando para o dicionário.

Os mecanismos de aferição de visitas aos blogs são imprecisos. Mas é evidente que eu e Ricardo Noblat somos líderes, o que se nota pela repercussão do que é publicado e pelo número de comentários. Não entendi por que o blogueiro de O Globo nem mesmo foi citado na reportagem da Folha.

Exemplo do equívoco
Marcelo Coelho, articulista da Folha e também blogueiro — é bom avisar porque pouca gente sabe disso — fala à reportagem. Segundo ele, "os blogs tendem a refletir com menos filtros as opiniões mais correntes. As pessoas se sentem mais livres para sectarismos, racismo, apoio a execuções de criminosos etc". É evidente que Coelho está falando dos blogs alheios, não do seu próprio, que não consegue juntar nem racistas nem anti-racistas, sem sectários nem tolerantes.

E, como ninguém precisa fingir inocência, ele deplora o que a esquerda considera ser a pauta da “direita”. É sintomático que ele não tenha criticado os blogs que defendem o roubo social, a invasão da propriedade privada e a violência como uma forma de justiça. Quando decide ser analista, arrisca: “É muito claro que os blogs de sucesso vão criando seu próprio vocabulário e seus próprios seguidores". Só os blogs? Os jornais não fazem — ou, ao menos, faziam — o mesmo? Mas também aqui é o caso de não ter inocente. Coelho tenta caracterizar blogueiros e leitores de blog — os “de direita”, claro — como uma horda de incivilizados.

Clareza
Entrei no blog de Coelho para saber sobre o que ele anda falando. Há lá um post sobre Wordsworth (aliás, no arquivo deste blog também...) e umas coisinhas ou outra de cultura etc e tal. Um post do dia 26/10 chamou a minha atenção. Começa assim:

“Leio em Teoria e Debate, revista bimestral da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, um artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, a respeito da votação no Senado da absolvição de Renan Calheiros.”

Coelho está dando visibilidade — a visibilidade possível — a este importante momento da vida pública nacional e do destino das esquerdas, que é o rompimento — ou coisa assim — da “psicanalista Maria Rita Kehl” com o PT. Consta que Lula só se recuperou desse trauma com a notícia velha do super-reserva de petróleo de Tupi. Entendo. É o tipo de coisa que desorienta. Imaginem: sem Maria Rita Kehl, o que será de Berzoini, de Delúbio Soares, de José Dirceu?

No texto de Maria Rita, lê-se: “Um governo que fecha os olhos para a falta de ética, de decoro e de transparência em nome da governabilidade produz, na sociedade, efeitos ingovernáveis –além de uma descrença generalizada, próxima do abatimento melancólico.”

Coelho poderia ter informado que Maria Rita é sua ex-mulher. Não torna o rompimento com o PT nem mais nem menos relevante, mas explica a importância, nas dimensões de sua página, dada à notícia. Expõe afinidades eletivas, não é?, coisa sempre importante para quem se mostra tão preocupado em mapear as filiações alheias. Quanto ao fato em si, o que eu faço no “meu” blog, e ele, por razões várias, jamais fará no dele? Isto que segue:

Maria Rita me lembra José Saramago e seu amor por Fidel Castro. Em 2003, acho, o escritor português, gagá e stalinista rompeu publicamente com o ditador por causa da execução sumária de alguns infelizes que tentaram fugir da ilha. E disse algo como: “Até aqui fui com Fidel”. Observei à época que Saramago conseguia ser mais indecente no rompimento do que no apoio. Ter ido “até ali” com Fidel significava condená-lo pela morte de duas ou três pessoas e absolvê-lo pelos milhares de assassinatos que praticou antes — além da tortura sistemática de presos políticos.

Assim faz a “psicanalista Maria Rita Kehl”. Esculhamba o PT por causa do apoio a Renan Calheiros. Coisa realmente muito feia. Entendo, então, que, a exemplo de Saramago, foi “até ali” com o partido. O que veio antes, ela aceitou numa boa.

Uma das novidades trazidas pelos blogs — e aqui está uma boa pauta — é o exercício do pensamento fora dos cânones do politicamente correto, subproduto da esquerda esclerosada. O Muro de Berlim já caiu faz tempo. E caiu sobre a cabeça das esquerdas. Mas, nos jornais, tem-se ainda a impressão de que foi o contrário. E eu acho que isso também ajuda a explicar os números.

Mas sou otimista. Nunca é tarde para começar a fazer a coisa certa.



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Mensagempor mends » 28 Dez 2007 14:20

Tio Rei se diverte
Eu adoro isto que segue porque remete ao centro da minha atuação. Querem ler? Escreve-me a fingida pomba lesa (na forma em que veio):

Reinaldo, eu acho pertinente boa parte de suas críticas ao governo Lula. Agora gostaria apenas que você fosse desse jeito não só com o governo do PT bem como os de outros partidos de oposição, haja vista que você é um jornalista e na minha concepção todo jornalista deve ser imparcial. E os elogios também da mesma forma. Fica parecendo que este blog está vinculado ao PSDB. Um abraço e um ótimo 2008.
Monrah

Comento
Monrah, Monrah, por quem me toma? Nunca caí nesse tipo de truque. Eu nem quero nem preciso que passem a mão na minha cabeça (cheia de buracos). É isto: não se distraia tentando me agradar, ou eu lhe dou uma dentada. Como diz a canalha, tenho um lado pit bull, entende? Esse negócio de me elogiar para cobrar, em seguida, a minha imparcialidade é tática de molestador de crianças. Eu não quero o seu elogio, a sua proteção ou o seu reconhecimento.

EU NÃO SOU IMPARCIAL. Estou comprometido com as minhas opiniões, com a minha visão de mundo, com as minhas escolhas ideológicas. Imparciais são esses vagabundos que ficam cantando as glórias do governismo, do lulismo, do petismo. Eles, sim, falam “em nome do povo”, geralmente recebendo prebendas do poder: alguns cobram grana, tutu, dinheiro; outros se contentam com informações “exclusivas” do chamado “círculo íntimo do poder...” (que nojo!!!), aquela gente que costuma escrever: “Lula comentou com interlocutores...” Argh!!! Geralmente é um recado do Franklin Martins. Eu não quero nada. Nem uma coisa nem outra. Nem dinheiro dos petistas (que é dos brasileiros) nem offs do Franklin Martins. Não preciso nem de uma coisa nem de outra.

Por isso, Monrah, não tente me pautar. Não tente ser meu “amiguinho” ou minha “amiguinha”. Quando acho que é o caso de atacar o PSDB, ataco, como fiz no caso da CPMF e da proteção ao senador Eduardo Azeredo (MG). Mas isso decido eu. O blog é meu. Não espere que eu vá saindo distribuindo porradas igualmente entre petistas e tucanos só para provar que não tenho lado. Até porque eu tenho: o da democracia, o do estado de direito, o da livre iniciativa, o do capitalismo, o da sociedade de mercado – vale dizer: quase sempre, eu e o PT estamos em lados opostos.

Vai ver você me acha um tanto antipetista... Não brinque! Como você percebeu? Eu me esforcei tanto para não passar essa impressão...


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Re: Tributo ao Tio Rei

Mensagempor mends » 18 Jan 2008 18:38

UM PEDIDO EXPLÍCITO AO iG: "TIREM-ME DA LISTA"
Ah, o que é que há?

Com alguma elegância, pedi para o iG me tirar da lista do “Prêmio” iBest. Não tenho como forçá-los a fazer isso. Mas deixo claro: não posso concorrer a um prêmio que não respeito. Então serei explicito:

“SENHORES DO iG, VOCÊS PODERIAM FAZER O FAVOR DE ME TIRAR DA LISTA?”

Eu não aceito fazer parte desse grupo. Eu não pertenço a essa patota. Não posso estar numa lista com alguns representantes do que chamo “Al Qaeda Eletrônica”.

Agora está claro?

O meu nome só está nessa porcaria para simular uma escolha “isenta”. Trata-se de pura hipocrisia. Como disse La Rochefoucauld, é a homenagem que o vício presta à virtude. Ou será que agora a Brasil Telecom começou a me considerar um cara bacana? Por quê? Tenham paciência. Divirtam-se entre vocês. Deixem-me fora disso. Eu lá preciso de prêmio!? Só aceito participar de concurso para eleger o cara mais bonito e mais gostoso. Cansei de tentar parecer inteligente. Agora eu só quero ser lindo...



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Re: Tributo ao Tio Rei

Mensagempor Danilo » 18 Mar 2008 22:36

Lula e as bobagens sobre Medidas Provisórias

“A medida provisória quando foi instituída pelo Congresso na constituinte de 1988 veio porque todos nós estávamos cansados de decreto-lei. Qualquer deputado, qualquer senador sabe que é humanamente impossível governar se não tiver medida provisória, porque o tempo e a agilidade que as coisas custam a acontecer muitas vezes é mais rápido que as decisões democráticas que são necessárias acontecer no Congresso Nacional”

O que vai acima é Lula depois da cerimônia de lançamento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em Campo Grande (MS).

Que língua ele fala? Lulês. O conjunto não faz sentido. A história que ele conta também não. Quer dizer que estávamos todos cansados de decreto-lei e resolvemos optar pela Medida Provisória, que vem a ser, na prática, um... decreto-lei? Dado que os efeitos de uma MP são imediatos, na maioria dos casos, o Congresso está impedido de rejeitá-la sem criar uma confusão formidável na sociedade.

Quanto à história: a MP só foi parar na Carta porque se apostava que o Brasil pudesse fazer a escolha pelo Parlamentarismo, e tal instituto já seria a expressão da maioria governante, consolidada num primeiro-ministro. Não era para ser um recurso do presidencialismo imperial que vigora no Brasil. Mais ainda: deveria, como deve, atender a duas exigências: urgência e relevância.

O que temos hoje? Até o cabidão da Lula News, a suposta TV supostamente pública, foi aprovada por meio de MP. Todos os outros presidentes, pós-Constituinte, governaram com MPs? Sim. Mas só Lula se atreve a criar uma teoria a respeito. Errada, como sempre.

Ah, sim: Lula era contra a edição de MPs no governo FHC. Passou a ser a favor no governo... Lula. Lula é sempre coerente à sua moda.

(Reinaldo Azevedo)
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Re: Tributo ao Tio Rei

Mensagempor Danilo » 09 Abr 2009 19:59

O Brasil, o Fundo e o saco sem fundo da mistificação

Leiam o que vai na Folha Online. Por Eduardo Cucolo. Comento em seguida:
O Brasil aceitou o convite feito pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) para entrar no clube dos 47 países que são credores do Fundo, ou seja, que financiam regularmente as operações da entidade.. O anúncio foi feito nesta quinta-feira pelo ministro Guido Mantega (Fazenda).
Ao aceitar esse convite, o Brasil poderá ser chamado a colocar recursos no Fundo caso seja necessário. Segundo Mantega, o país poderá contribuir até o limite de US$ 4,5 bilhões, valor proporcional à cota do Brasil no Fundo. O dinheiro sairá das reservas internacionais, que estão hoje em cerca de US$ 200 bilhões.
"O FMI está convidando o Brasil para fazer parte dos países que são credores. Eu aceitei hoje esse convite", disse o ministro.
Essa transferência dos recursos não afeta o nível das reservas, pois será considerada apenas como uma mudança de aplicação desse dinheiro, que hoje está aplicado principalmente em títulos do governo dos EUA.
Mantega afirmou que o aporte desses recursos será feito de acordo com as solicitações do FMI.
"Não vamos colocar esse dinheiro agora. Será quando o Fundo solicitar", afirmou. "Agora nós estamos só entrando no clube de credores do FMI".

Ajuda a emergentes
Além desses US$ 4,5 bilhões, o Brasil pretende colocar mais dinheiro no FMI, segundo decidido em reunião do G20 na semana passada. Para isso, no entanto, terá de esperar que o Fundo crie um novo título que possibilite mais aplicações.
Hoje, a contribuição do Brasil ao Fundo está limitada a esses US$ 4,5 bilhões adicionais. Para aplicar mais, irá comprar esse novo título, que também será considerado uma aplicação das reservas.
Na reunião do G20 no final do mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil estava disposto a virar credor FMI e que isso seria "chique".
Segundo o ministro da Fazenda, esse dinheiro será usado para ajudar os países em desenvolvimento.
"Os países que estão solicitando recursos do FMI são os países emergentes, os mais pobres. Os países avançados não precisam. Os EUA são o país que causou a crise, mas é também o país que tem a maquininha de fazer dólares. Os países avançados não vão pedir ajuda."
Mantega afirmou que, com esse dinheiro, o Brasil ajudará indiretamente os países mais pobres a normalizarem suas economias. Segundo ele, isso também se reverterá em favor da economia brasileira.
"Isso vai viabilizar crédito para os países emergentes que estão com problemas, portanto ajuda a ativar a economia mundial", afirmou. "Isso ajudará o Brasil também, pois esses países vão ter mais recursos para importar mercadorias, vão fazer investimento."

Comento
Em suma, o que está realmente decidido, como hipótese, é que o Brasil fará um aporte ao Fundo Monetário Internacional SEGUNDO A SUA COTA. O resto depende da criação de um título etc e tal.

Chamar isso de “empréstimo” é uma questão política, não técnica. É só antecipação de um slogan da campanha eleitoral de 2010. Que, então, tem uma curiosa contradição interna.

O FMI mudou essencialmente os seus princípios? Não. Quando o Brasil, que sempre foi sócio do fundo, devia ao clube a que pertence, este clube era tratado pelas esquerdas — e também pelo petismo, Lula em particular — como um monstro sugador de recursos dos países pobres. E eles gritavam: “Fora FMI”.

Agora que o Brasil pode vir a ser credor do fundo, o “monstro” virou a salvação da lavoura. E passou a ser “chique” ter dinheiro lá.

(http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo ... do-da.html)
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